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Hilária Batista de Almeida, Tia Ciata (1854-1924)

“Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro”
(FUNARTE, 1983) de Roberto Moura

 

 

Extraits :

“Salvador, antiga capital, é no início do século XIX uma surpreendente cidade do mundo colonial português.” (...) “Lá se deflagram as grandes revoltas urbanas, conflitos que legam à sociedade brasileira da Primeira República o temor de levantes negros nas capitais, expresso pelas instituições policiais por uma duradoura vigilância e intolerância.” (pág. 19)

“A Assembléia Provincial do Rio de Janeiro chega a pedir em 1835 que se impeça o desembarque de escravos da Bahia e principalmente o de libertos de qualquer estado na capital, já que esses eram considerados os fomentadores das revoltas.” (pág. 31)

“Francisco Gonçalves Martins, chefe da polícia na época da revolta malê, se torna presidente da província da Bahia de 1849-53 e, com sua obsessão pelo perigo africano, defende limitar o escravo à esfera da agricultura e coagir os libertos a voltar para a África. Durante sua gestão amplia as exclusões dos escravos a ocupações urbanas, proíbe aos negros o aprendizado de determinados ofícios, estabelece impostos aos artífices urbanos, e aumenta a insegurança com a ação repressiva da polícia, que enche as prisões com libertos, aumentando as levas de forros que partem, alguns para a África, muitos para o Rio de Janeiro.” (pág. 32)

“A província do Rio de Janeiro, de 119.141 escravos em 1844, no início da década de 1870 passa a contar com mais de trezentos mil, dos quais grande parte havia chegado da África através dos portos do Nordeste, muitos vindos de Salvador...” (pág. 28)

“Mas é em Salvador que se redefine o calendário cristão num novo ciclo de festas populares, quando nos santos católicos seriam encontradas correspondências e identidades associadas aos orixás nagôs, homenageados não só em cerimônias privadas, mas, a partir de então, com toda exuberância na festa ‘católica’, nas ruas, nas praças e mesmo nas igrejas da cidade.” (pág. 35)

“... cheganças, bailes, pastoris, bumba-meu-boi e cucumbis, que saíam à rua revelando, mesmo em meio da dura repressão provocadas pelas insurreições dos escravos, a progressiva afirmação do negro na cidade. Os cucumbis baianos reapareceriam no Rio de Janeiro anos depois, em ranchos negros onde se cantava e dançava música africana em procissões que atravessavam os bairros populares, só interrompidas pelas luzes da manhã.” (pág. 36)

“Nos cantos das nações se tornam comuns as giras dos batuqueiros onde vai surgir o samba baiano, motivos desenvolvidos pelo coro e contestados pelos solistas: o samba de roda. Orquestra de percussionistas com tamborins, cuícas, reco-recos e agogôs. Batuque era o nome genérico que o português dava às danças africanas suas conhecidas ainda no continente negro, que na Bahia tomam a forma de uma dança-luta que ocorria aos domingos e dias de festa na praça da Graça e na do Barbalho, apesar da constante vigilância policial. Entretanto, se o conde dos Arcos, governador da Bahia no início do século, defendera a libertação dos batuques de nação, argumentando que estes ‘renovariam as idéias de aversão recíproca que lhes eram naturais desde que nasceram, e que todavia se vão apagando pouco a pouco com a desgraça comum’; com a revolta de 1814, a permissão do conde dos Arcos é revogada e os batuques são novamente proibidos, assim como a permanência de negros em tendas, botequins e tavernas.” (pág. 41)

“No século XIX, com o desenvolvimento da cultura do café no Sudeste, se manteria o fluxo escravagista para o Rio de Janeiro, e muitos negros viriam do Nordeste para as plantações do vale do Paraíba como para trabalhar no interior paulista. A escravatura urbana da nova capital, tão bem documentada pelo trabalho de Debret, começa a perder importância com a transferência maciça de negros vendidos para as plantações. A população negra do Rio de Janeiro só voltaria a crescer já na segunda metade do século XIX com a decadência do café no vale do Paraíba e com as chegadas sistemáticas dos baianos que vêm tentar a vida no Rio de Janeiro.” (pág. 43)

“A Abolição engrossa o fluxo de baianos para o Rio de Janeiro, liberando os que se mantinham em Salvador em virtude de laços com escravos, fundando-se praticamente uma pequena diáspora baiana na capital do país, gente que terminaria por se identificar com a nova cidade onde nascem seus descendentes, e que, naqueles tempos de transição, desempenharia notável papel na reorganização do Rio de Janeiro popular, subalterno, em volta do cais e nas velhas casas do Centro.” (pág. 43)

“O grupo baiano iria situar-se na parte da cidade onde a moradia era mais barata, na Saúde, perto do cais do porto, onde os homens, como trabalhadores braçais, buscam vagas na estiva. Com a brusca mudança no meio negro ocasionada pela Abolição, que extingue as organizações de nação ainda existentes no Rio de Janeiro, o grupo baiano seria uma nova liderança. A vivência de muitos como alforriados em Salvador ­ de onde trouxeram o aprendizado de ofícios urbanos, e às vezes algum dinheiro poupado ­, e a experiência de liderança de muitos de seus membros ­ em candomblés, irmandades, nas juntas ou na organização de grupos festeiros ­, seriam a garantia do negro no Rio de Janeiro. Com os anos, a partir deles apareceriam as novas sínteses dessa cultura negra do Rio de Janeiro, uma das principais referências civilizatórias da cultura nacional moderna.” (pág. 44

bahiannas“Nos ranchos, cortejos de músicos e dançarinos religiosos mas pândegos e democráticos, que já anteriormente apareciam na Bahia, lutariam carnavalescamente para impor a presença do negro e suas formas de organização e expressão nas ruas da capital da República. A baiana Bebiana, irmã de santo da grande Ciata de Oxum, é figura central da primeira fase dos ranchos cariocas, ainda ligada ao ciclo do Natal, guardando em sua casa, no antigo largo de São Domingos, a lapinha, em frente à qual os cortejos iam evoluir no dia de Reis. Hilário (Hilário Jovino Ferreira, nascido no terceiro quarto do século XIX em Pernambuco, de pais presumidamente forros, e levado para Salvador ainda criança, só viria para o Rio de Janeiro já adulto, onde, graças a seus excepcionais dotes, se tornaria uma das figuras de proa do meio baiano), que se tornaria o principal criador e organizador dos ranchos da Saúde, talvez o principal responsável pelo deslocamento dos desfiles para o Carnaval, o que transformaria substancialmente suas características: a festa profana passa a sugerir um novo enfoque musical e coreográfico, se transferindo para a Cidade Nova, em torno da praça Onze, os pontos de encontro, organização e desfile dos ranchos baianos.” (pág. 89)

“Tia Bebiana e suas irmãs-de-santo, Mônica, Carmem do Xibuca, Ciata, Perciliana, Amélia e outras, que pertenciam ao terreiro de João Alabá, formam um dos núcleos principais de organização e influência sobre a comunidade. Enquanto as classes populares, em sua maioria proletarizadas, sob a liderança inicial dos anarquistas, se organizam em sindicatos e convenções trabalhistas, grande parte do povão carioca que se desloca do cais pra Cidade Nova, pro subúrbio e pra favela, predominantemente negro e mulato, também se organiza politicamente, em seu sentido extenso, a partir dos centros religiosos e das organizações festeiras. Assim, são essas negras, que ganham respeito por suas posições centrais no terreiro e por sua participação conseqüente nas principais atividades do grupo, que garantem a permanência das tradições africanas e as possibilidades de sua revitalização na vida mais ampla da cidade.” (pág. 95)

“Mas a mais famosa de todas as baianas, a mais influente, foi Hilária Batista de Almeida, Tia Ciata, relembrada em todos os relatos do surgimento do samba carioca e dos ranchos...” (pág. 96)

“A casa de João Alabá, de Omulu, dava continuidade a um candomblé nagô que havia sido iniciado na Saúde, talvez o primeiro do Rio de Janeiro, por Quimbambochê, ou Bambochê Obiticô..., africano que chega a Salvador num negreiro na metade do século XIX, junto com a avó da babalorixá Senhora, onde se torna, depois de alforriado por sua irmã de nação Marcelina, um influente babalaô.” (pág. 98)

“Na sala (da casa de Tia Ciata), o baile onde se tocavam os sambas de partido entre os mais velhos, e mesmo música instrumental quando apareciam os músicos profissionais, muitos da primeira geração dos filhos dos baianos, que freqüentavam a casa. No terreiro, o samba raiado e às vezes as rodas de batuque entre os mais moços. (...) As grandes figuras do mundo musical carioca, Pixinguinha, Donga (filho de mãe baiana), João da Baiana (idem), Heitor dos Prazeres (também filho de mãe baiana), surgem ainda crianças naquelas rodas onde aprendem as tradições musicais baianas a que depois dariam uma forma nova, carioca.” (pág. 103)

“A casa da Tia Ciata se torna a capital dessa Pequena África no Rio de Janeiro. (...) Assim, esse grupo baiano se constituía numa elite nessa comunidade popular que se desloca do Centro para suas imediações, forçada a se reestruturar a partir das grandes transformações nacionais e da reforma da cidade, referências de um grupo heterogêneo e caótico onde se preservam e se misturam essas maiorias e minorias étnicas nacionais e estrangeiras. Principalmente entre os negros, os africanos e os baianos da nação iorubá, garantidos por suas tradições civilizatórias e coesos pelo culto do candomblé, eram considerados uma gente distinta, a cujas festas não era qualquer ‘pé-rapado’ que tinha acesso, e cujas cerimônias eram vedadas aos de fora.” (pág. 106)

“Os conflitos e a modernização expõem a antiga unidade do grupo e interferem nas suas formas fundamentais de expressão. Se o candomblé baiano se mantém em algumas casas, e mais freqüentemente de forma sincretizada nas macumbas que aparecem nos morros, e depois na umbanda da classe média, os ranchos desaparecem, renovando-se na forma moderna das escolas de samba. Os descendentes dos primeiros baianos, afastados de um convívio tão intenso, dispersos pela cidade, mantêm o justo orgulho de suas origens e de seus antepassados, hoje consubstanciados nas modernas instituições religiosas e carnavalescas, nas artes e no temperamento profundo do Rio de Janeiro, para quem são tradição e referência.” (pág. 107)

“Já depois da metade do século XIX, quando a festa (a Festa da Penha) passa a se estender por todos os domingos de outubro, ao lado dos portugueses que comiam e entoavam seus fados na grama, estimulados pelo vinho generoso nos tradicionais chifres de boi ou pela cerveja preta ‘barbante’, começam a se ouvir os sambas de roda dos negros animados pela ‘branquinha’ nacional, a se armar batucadas ‘em liso’ ou ‘pra valer’ jogadas pelos capoeiristas, principalmente quando a noite caía e subia a temperatura etílica da festa.” (pág. 108)

“‘Malandro não estrila’ era a palavra de ordem, a roda dos capoeiristas aberta depois da reza para quem tivesse coragem e agilidade nas pernas. Ficam famosas algumas brigas sérias, geralmente atribuídas aos negros pela polícia que intervinha com sua costumeira violência, fruto não só da rivalidade entre os malandros, mas também do contato difícil entre negros e portugueses, rivais no mercado de trabalho braçal e sempre se encontrando empregado e patrão no comércio carioca. Seja pelo temor que inspiravam os bambas da Saúde, seja pelo repique do samba que vai pouco a pouco calando os tambores brutos do Zé-pereira, os portugueses perdem presença na Penha que por anos relembra um arraial africano.” (pág. 109/110)

“Para Tia Ciata e sua geração de baianas-festeiras tradicionais, (...) a festa da Penha era o momento de encontro de sua comunidade de origem com a cidade, desvendando para os ‘outros’ essa cultura que subalternamente se preservava e que era a cada momento reinventada pelo negro do Rio de Janeiro. Mas sua morte, em 1924, encerra uma época.” (pág. 115)

Filmographie

"Do Dia em que Macunaíma e Gilberto Freyre Visitaram o Terreiro da Tia Ciata ..".
film en couleur, avec Tia Ciata, Freyre, Macunaíma
Diretion: Sérgio Zeigler, Vitor Ângelo Tipo: Ficção
Format: 35mm
Année de Production: 1998
Origine: Brasil (SP)
Durée: 20 min.

recherches & traductions : Aruera

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