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José Alexandre Melo Morais Filho
Festas e tradições Populares do Brasil / 1901
tipos de rua : Capoeiragem e Capoeiras Célebres (Rio de Janeiro)

 

 

I

Entre as nossas classes populares a dos capoeiras avultou sempre neste país, assinalando nos primeiros tempos costumes de uma torrente de imigração africana, e depois uma herança da mestiçagem no conflito das raças. Como a febre amarella, que não sabemos porque espanta tanta gente e quer-se a todo o transe debelar, a capoeiragem, que é uma luta nacional, degenerando em assassinatos, tem merecido perseguição sem descanso, guerra sem condições.

Entretanto na Europa o tifo, a difteria, o colera e mais epidemias produzem anualmente grande destroços e a ciência não cogitou nunca do seu extermínio, mas de prevení-la ; os jogos de destreza e de fôrça são regulados em seu exercício, disciplinados pela arte, não havendo quem se oponha senão aos abusos.

Jornal "O malho"
de février 1904

Na Inglaterra há famílias de remadores, de jogadores de sôco ; de indivíduos que se distinguem por atividades motoras que desenvolvem, que exercitam desde a infância, e que os torna notáveis pela força muscular. Êsses jogos, êsses exercícios sobem da derradeira camada popular à mais antiga aristocracia, e são para o inglês o que os jogos olímpicos eram para os gregos, a luta para os romanos -- um meio de aperfeiçoamento de formas, um recurso de combate. Nas Memórias de lord Byron, conta Th. Moor que, no dia do falecimento da mãe do ilustre poeta, o cantor da Parisina jogara o sôco com o seu criado. Lord Palmerston, muitas vêzes depois de calorosas discussões no parlamento, vestia-se de marinheiro e remava no seu batel ao longo do Tâmisa. Os portuguêses tem o jogo de pau, os franceses a savate, etc.
Essas lutas, essas aptidões, que variam de povo para povo, mas com o fim que acima indicamos, concorrem para reunir mais um traço à fisionomia nacional, e têm merecido de espíritos eminentes sérias reflexões : Darwin e Ribot socorreram-se dêsses elementos no estudo da generalização das leis da hereditariedade. No Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, há uma sub-classe que reclama distintíssimo lugar entre as suas congêneres e que tem todo o direito a uma nesga de téla no quadro da história dos nossos costumes -- a dos capoeiras. O capoeira não é nada mais nem nada menos do que o homem que entre dez e doze anos começou a educar-se nesse jogo (a capoeiragem), que põe em contribuição a força muscular, a flexibilidade das artigulações e a rapidez dos movimentos -- uma ginástica degenerada em poderosos recursos de agressão e pasmosos auxílios de desafronta.

Jornal "O malho" de 1904

O capoeira, colocado em frente a seu contendor, investe, salta, esgueira-se, pinoteia, simula, deita-se, levanta-se e, em um só instante, serve-se dos pés, da cabeça, das mãos, da faca, da navalha, e não raro que um apenas leve de vencida dez ou vinte homens. A navalha e um cacete, que nunca excede de cinquenta centímetros, prêso ao pulso por uma fina corda de linho, eram-lhe as armas prediletas, nunca fazendo uso das de fogo. semelhança dos boxers na Inglaterra, tivemos excelentes capoeiras nas eminências da política. Os arsenais, o exército, a marinha, as classes menos abastadas fornecem contingentes avultados, e são na máxima parte mulatos e crioulos. A polícia também os possui, porém desligados da comunhão, detestados, e nos conflitos com os transfugas são êstes quase sempre cortados, o que segundo a gíria, quer dizer -- marcados. Os capoeiras formam maltas, isto é, grupos de vinte a cem, que, à frente dos batalhões, dos préstitos carnavalescos, nos dias de festas nacionais, etc., provocam desordens, esbordoam, ferem... Cada malta tem sua denominação : a Cadeira da Senhora, é da freguesia de Sant'Ana; Três Cachos, a da freguesia de Santa Rita ; Franciscanos, a de S. Francisco de Paula ; Flôr da Gente, a da freguesia da Glória, Espada, a do largo da Lapa; Guaiamú, a da Cidade Nova ; Monturo, a da praia de Santa Luzia, etc. O capoeira gosta da ociosidade, e entretanto trabalha ; a segunda-feira é para êle um prolongamento do domingo. Quando se dedica a alguém é incapaz de uma traição, de uma deslealdade... Ao seu ombro tisnado escorou-se até há pouco o senado e a câmara, para onde, à luz da navalha, muitos dos que nos governam, subiram. O seu trajar é caraterístico : usa de calças largas, palitó saco desabotoado, camisa de côr, gravata de manta e anel corrediço, colete sem gola, botinas de bico estreito e revirado, e chapéu de fêltro. Seu andar é oscilante, gingado ; e na conversa com os companheiros ou estranhos, guarda distância, como em posição de defesa. Esguio e ágil, o capoeira demostra na compleição de aço uma atividade circulatória verdadeiramente tropical ; e o seu olhar como que mergulha no ânimo do adversário, surpreendo-lhe as emoções mais súbitas, os expedientes mais rápidos.
Se acontece ser acometido, quando desarmado, machuca o chapéu ao comprido, e nas evoluções costumadas desvia com eles golpes certeiros. Êste tipo, entretanto, não é do capoeira transpondo as barreiras coloniais, dessas falanges que elevaram

a arte à altura de uma institução.
O capoeira antigo tinha igualmente saus bairros, o ponto de reunião das maltas; suas escolas eram as praças, as ruas, os corredores. A malta de Santa Luzia chamava-se a dos luzianos; a do Castelo, de Santo Inácio ; a de S. Jorge, da lança; dos ossos a do Senhor Bom Jesus do Calvário: flôr da uva, a de Santa Rita, etc.

Qual o seu pessoal ? Geralmente eram compostas de africanos, que tinham como distintinvos as côres e o modo de botar a carapuça, ou de mestiços (alfaiates e charuteiros), que se davam a conhecer entre si pelos chapéus de palha ou de fêltro, cujas abas reviravam, segundo convenção. A categoria de chefe de malta só atingia aquêle cuja valentia o tornara inexedível, e de chefe dos chefes o mais afoito de entre êstes, mais refletido e prudente.
Os capoeiras, até quarenta anos passados, prestavam juramento solene, o o lugar escolhido para isso eram as tôrres das igrejas. As questões de freguesia ou de bairro não os desligavam, quando as circunstâncias exigiam o desagravo comum ; por exemplo : um senhor, por motivo de capoeiragem, vendia para as fazendas um escravo filiado a qualquer malta ; êles reuniam-se e designavam o que havia de vingá-lo. No tempo em que os enterramentos faziam-se nas igrejas e que as festas religiosas amiudavam-se, as tôrres enchiam-se de capoeiras, famosos sineiros que, montados na cabeça dos sinos, acompanhavam tôda a impulsão dos dobres, abençoando das alturas o povo que os admirava, apinhado nas praças ou nas ruas. A capoeiragem antiga e a moderna tem a sua gíria, a sua maneira de expressão, pela qual são compreendidos os lances do jogo. Devéras arriscados, difíceis, e dependendo de rapidez e hábito, não é sem longa prática que conseguem tais lutadores fazer-se notáveis. Para darmos uma pálida idéia da gíria e de jôgo, ajustemos por aquela algumas evoluções dêste. Um dos preparativos mais rudimentares do capoeira o o rabo de arraia. Consiste êle na firmeza de um pé sôbre o solo e na rotação instantânea da perna livre, varrendo a horizontal, de sorte que a parte dorsal do pé vá bater no flanco do contendor, seguindo-se após a cabeçada ou a rasteira, infalíveis corolários da iniciação do combate.

Por escorão, entendem êles amparar inesperadamente, com o pé de encontro ao ventre, o adversário, o que é um subterfúgio, que difere do pé de panzina, que é o mesmo no resultado, porém que o fazem não como um recurso do jogo, maisdeixando à destreza tempo para varrê-lo. O passo a dois (gíria moderna) é um sapateado rápido que antecede a cabeçada e a rasteira ; da qual o acometido se livra armando o clube-X, que quer dizer o afastamento completo das tíbias e a união dos joelhos, que, formando larga base, estabelecem equilíbrio, recebendo no embate o salto da botina, que ainda ofende o adversário. O tombo de ladeira é tocar no ar, com o pé, o indivíduo que pula ; a rasteira-à-caçador é o meio ginástico de que se servem para, deixando-se cair sôbre as costas, ao mesmo tempo que se firmam-se nas mãos, derrubarem o contrário, imprimindo-lhe com o pé violenta pancada na articulação tíbio-tarsiana. O Tronco, raiz e fedegoso, talvez o lance mais feliz do jôgo, visto depender de uma agilidade incrível e considerável solidez muscular, forma a síntese dos arriscados estudos da capoeiragem.

II
Figuramos uma arena. Os contendores aproximam-se, os olhos cintilam, os lábios murmuram frases de desdém, de ameaça. Ondulando em movimento serpentiginoso, balançam os braços, conservando a cabeça e o pescoço na imobilidade. Um dêles, enlaçando imprevisto com o braço direito os membros superiores e o tórax do outro, com a velocidade de um raio, com a presteza do relâmpago, une-se, flanco, contra flanco, e assim tolhido, escora-lhe na perna os membros inferiores, revira-o do alto, caíndo-lhe por trás, frio como um cadáver, inerte como a morte.
Não é sempre fatal este lance, pois a arte oferece ainda neste caso expedientesadmiráveis. As escolas de capoeiragem multiplicavam-se nesta cidade, pertencendo cada turma de discípulos a esta ou aquela freguesia. Desde a dos caxinguelês, meninos que iam à frente das maltas provocar bairros inimigos ; até os mestres que serviam para exercícios preparatórios, esses cursos regulares funcionavam conhecidos, sendo os mais frequentados o da praia de Santa Luzia, não falando nas torres da igrejas -- ninhos atroadores dos capoeiras de profissão. Alistados nos batalhões da guarda nacional, os capoeiras exerciam poderosa influência nos pleitos eleitorais, decidiam das votações, porque ninguém melhor do que eles arregimentava fósforos, emprenhava urnas, afugentava votantes.

Muitos dos comandantes de corpos e grande parte da oficialidade entendiam do jogo, ou eram habilíssimos na arte. Os desafios entre as freguesias transmitiam-se por meio de pancadas de sino convencionais e em horas determinadas. Os assaltos, os combates se davam nas praças, nas ruas, em sítios mais ou menos distantes e desertos. s vezes, interrompendo a marcha de uma procissão, o desfilar de um cortejo, ouvia-se, aos gritos das senhoras correndo espavoridas, das negras levando os senhores moços ao colo, dos pais de família pondo a abrigo a mulher e os filhos, o horroroso Fecha ! fecha ! Os caxinguelês voavam na frente, a capoeiragem disparava indômita, seguindo-se ao distúrbio cabeças quebradas, lampeões apedrejados, facadas, mortes...
A polícia, amedrontada e sem força, fazia constar que perseguia os desordeiros, acontecendo raríssimas vezes ser preso este ou aquele, que respondia a processo.
Pertencendo à segunda fase da capoeiragem no Rio de Janeiro, essas cenas tiveram lugar durante a administração policial de Eusébio de Queiroz e de seus sucessores, desaparecendo totalmente com a guerra do Paraguai, que não sacabou somente com os capoeiras, porém assinalou o termo do patriotismo brasileiro. É geralmente sabido pela tradição que no Senado, na Câmara dos Deputados, no Ejército, na Marinha, no funcionalismo público, na cena dramática e mesmo nos claustro havia capoeiras de fama, cujos nomes nos são conhecidos. Nas garrafadas de março, um dos nossos mais eloquentes oradores sagrados fez prodígios nesse jogo, livrando-se de seus agressores ; recordamo-nos ainda de um frade do Carmo, que, por ocasião de uma procissão do Enterro, debandou a cabeçadas e a rasteiras um grupo de indivíduos imprudentes que o provocaram. Pergunte-se por aí qual o ator cuja valentia e destreza, como capoeira, eram respeitadas, e acreditai que a popularidade precisaria subir muito para atingir-lhe o pedestal. Quando estudavamos no Colégio de Pedro II, foi nosso lente de francês o bacharel Gonçalves, bom professor e melhor capoeira. O Dr. D. M., jurisconsulto eminente e deslumbrante glória da tribuna criminal, cultivou em sua mocidade essa luta nacional, entusiasticamente levada a excessos pelo povo baixo, que a afogou nas desordens, em correrias reprovadas, em homicídios horrorosos. Pode-se dizer que de 1870 para cá os capoeiras não existem : se um ou outro, verdadeirament digno desse nome pela lealdade antiga, pela confiânça própria e pelo conhecimento da arte resta por aí, veiu daquêle tempo em que a capoeiragem tinha disciplina e dirigia-se a seus fins. Navalhar a traição, deixar-se prender por dois ou três soldados e espancar a um pobre velho ou a uma criança, ser vagabundo e ratoneiro, nunca constituiram os espantosos feitos das maltas do passado, que brigavam freguesia com freguesia, disputavam eleições arriscadas, levavam à distância cavalaria e soldados de permanentes quando intervinham em conflitos de suscetibilidade comuns.

O capoeira isolado, naqueles tempos, trabalhava, constituia família a vadiagem lhe era proibida, não era gatuno, afrontava a força pública e só se entregava morto ou quase morto. Como fizemos ver em princípio, as turmas militantes condensavam as classes operárias e os escravos, expressão nítida da capoeiragem da rua. Não sendo estranhos ao jogo, portugueses havia que se aliavam às maltas avulsas, distinguindo-se entre eles homens de inaudita coragem e espantosa agilidade.
Luzidas companhias de batalhões da guarda nacional; de que tinham orgulho os briosos comandantes, reuniam magnífica rapaziada, de onde eram tiradas praças para diligências perigosas, servindo igualmente para as campanhas eleitorais. A prova de que a capoeiragem entrava nos nossos costumes está em que não havia menino que não botasse o boné à banda e soubesse gingar, nem escolas que se não desafiassem para brigar, sendo de data recente as lutas entre os famosos colégios Sabino, Pardal e Vitório. Hoje que tudo se acha mudado, que se dizem capoeiras gatunos e assassinos, em que a bobagem dos duelos arma a popularidade e os desfrute, o jogo nacional da capoeiragem é apenas visto pelo que tem de mau e bárbaro, como se fosse menosmau e menos bárbaro do que as lutas da mesma natureza usadas por outros povos.

De entre os chefes da malta, dos campeões que mais lustre deram à arte na capoeiragem pública, uns eram conhecidos por alcunhas, outros pelos nomes autênticos. Sendo-nos difícil citar a extensa lista nominal desses valentes, registramos apenas os nomes daqueles que a tradição tem permetuado na lembrança popular. O Mamede, o Chico Carne Seca, o Quebra Côco, o Fradinho, o Natividade, o Maneta, o Bonaparte, o Leandro, o Aleixo Açougueiro, o Bentevi, o Pedro Cobra, etc...
- para não falarmos no capitão Nabuco, um Hercules, o homem de mais força que tem tido o Rio de Janeiro - estiveram nos galarins do prestígio, naseminências de reputação justa e merecida. Sobrenadando ao esquecimento que envolve os seus mais esforçados companheiros, o Manduca da Praia jamais foi condenado à mesma pena, pois o povo repete ainda as façanhas que motiovavam-lhe a nomeada. Conhecido por toda a população fluminense, considerado como homem de negócio, temido como capoeira celebre, eleitor crônico da freguesia de São José, apenas respondeu a 27 processos por ferimentos leves ou graves, saindo absolvido em tôdos êles pela sua influência pessoal e dos seus amigos. O Manduca da Praia era um pardo claro, alto, reforçado, gibento, e quando o vimos usava barba crescida e em ponta grisalha e côr de cobre. De chapéu de castor branco ou de palha ao alto da cabeça, de olhos injetados e grandes, de andar compassado e resoluto, a sua figura tinha alguma coisa que infudia temor e confiança. Trajando com decência, nunca dispensava o casaco grosso e comprido, grande corrente de ouro de que pendia o relógio, sapatos de bico revirado, gravata de côr com um anel corrediço, trazendo sómente como arma uma bengala fina da india.

O Manduca tinha banca de peixe na praça do Mercado, era liso em seus negócios, ganhava bastante e tratava-se com regalo. Constante morador da Cidade Nova, não recebia influências da capoeiragem local nem de outras freguesias, fazendo vida a parte, sendo capoeira por sua conta e risco. Destro como uma sombra, foi no curro da rua do Lavradio, canto da do Senado, onde é hoje uma cocheira de anorinhas, que êle iniciou a sua carreira de rapaz destemido e valentão, agredindo touros bravos sôbre o quais saltava, livrando-se.
Nas eleições de São José dava cartas, pintava o diabo com as cédulas.

Nos esfaqueamentos e nos sarilhos próprios do momento, ninguém lhe disputava a competência. Um dia, na festa da Penha, o Manduca da Praia bateu-se com tanta vantagem contra um grupo de romeiros armados de pau que alguns ficaram estendidos e os mais inutilizados na luta. O fato que mais o celebrizou nesta cidade remonta à chegada do deputado português Sant'Ana, cavalheiro distintíssimo e invencível jogador de pau, dotado de um fôrça muscular prodigiosa. Santana, que gostava de brigas, que não recuava diante de quem quer que fôsse, tendo notícia do Manduca, procurou-o. Encontrando-se os dois, houve desafio, acontecendo àquele soltar nos ares ao primeiro camelo do nosso capoeira, depois do que bebêram champagne ambos, e continuaram amigos. A capoeiragem, como arte, como instrumento de defesa, é a luta própria do Brasil.

© aruera