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Penteado, Jacob.
Belenzinho, 1910 (Retrato de uma época).
Sao Paulo, Livraria Martins Editora, 1962, pp. 215-218.
 

“Na rua Conselheiro Cotegipe (...) havia uns casebres, para dentro do alinhamento, com um terreiro e um vasto quintal, aos fundos, habitados por negros. Muitos deles, diziam-se ex-escravos. Na época, era difcil encontrar-se um negro velho que no se dissesse antigo escravo e veterano do Paraguai...
No dia 12 de maio, vspera, portanto daquela data, boca da noite, comeavam a chegar negros que nem formiga. Vinham sozinhos ou em magotes, todos empunhando os mais variados instrumentos: bombos, chocalhos, pandeiros, atabaques, tringulos, maracas, tamborins, reque-reques, putas, urucungos, marimbas, adufes e outros, herdados, qui, dos seus ancestrais africanos.
Surgiam tantos, que parecia incrivel coubessem naquele reduto. Seu chefe era o Barnabé(...)
O samba de ento era bem diferente do atual. No passava de um extico amlgama das numerosas danças regionais, da capoeira, do lundu, do jongo, do batuque, do catereté etc.
Depois dos comes-e-bebes, de muita cachaça ou quento, os negros animavam-se, e a comeava o samba de roda. Sob o som infernal dos instrumentos de percusso, onde se destacava o toque surdo dos bombos e dos tambores, iniciava-se a noitada.
Formava-se uma roda no terreiro um dos parceiros pulava para o centro e comeava a cantar, saracoteando-se todo:

'Oi, embar, oi embar!
Baiana que pesa oro no pode pesa met!' (...)

O batuque ia esquentando. Em pouco tempo, vrios pares pulavam no centro da roda, enquanto os demais batiam palmas, compassadamente. Eram movimentos alucinantes, desenfreados, contorses grotescas, sem ritmo nem graa, numa coreografia primitiva, onde as negras de bunda grande ( negras ia ) remexiam loucamente as cadeiras, lascivas e lbricas, entre tapas e belisces nas partes mais salientes. E o coro prosseguia (...)

E nessa toada varavam a noite. No fim, nada mais se entendia. era uma sarabanda de mil diabos, um caia por cima do outro, numa promiscuidade danada. Muitos pares sumiam para o fundo do quintal, onde havia umas bananeiras e pés de mamona. Na roda, ainda resistiam alguns, danando, ou melhor, pulando alvoroados, num insuportével intercambio de bodum.

E o samba continuava até o dia raiar.”

 

© aruera