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Edison Carneiro
Folguedos Tradicionais

Dá-se o nome de capoeira a um jogo de destreza que tem suas origens remotas em Angola. Era antes uma forma de luta, muito valiosa na defesa da liberdade de fato ou de direito do negro liberto, mas tanto a repressão policial quanto as novas condições sociais fizeram com que, há cerca de cinqüenta anos, se tornasse finalmente um jogo, uma vadiação entre amigos. Com esse caráter inocente a capoeira permanece na Bahia, enquanto em outros estados, em que se registrava outrora, formas subsidárias dela continuam vivas.

Trata-se de um combate singular em que os apenas demonstram a sua capacidade de ataque e de defesa sem, contudo, atingir efetivamente os oponentes.

Foi durante a escravidão que o jogo de Angola cresceu e chegou à maioridade no Brasil. Desde o nome. Ensina o dicionarista Macedo Soares: Pode ser que capoeira gente venha de capoeira mato. Do negro que fugia dizia-se e diz-se ainda:"Foi pra capoeira; caiu na capoeira, meteu-se na capoeira".E não só do negro, mas também do recruta e do desertor do exercício e da armada, que procurava fugir das autoridades policiais, empenhadas em agarrá-los. E diz-se também do gado que foge do campo. "Um capoeira" não seria sinônimo de "negro fugido, canhambora, quilombola"? Este, para se defender, precisava de atacar; e às vezes inculcava apenas mais malvadez do que tinha. "Negro fugido, canhambora, quilombola" ainda hoje são sinônimos de ente perigoso, faquista assassino, e, ao mesmo tempo, vivo, esperto, ligeiro, corredor, destro em evitar que os outros peguem, capoeira enfim.

Macedo Soares escreveu este verbete por volta de 1888.

Mais de cem anos antes, porém, as maltas de capoeiras já inquietavam os cidadãos pacatos do Rio de Janeiro e se tornavam um problema para os vice-reis. Espalhavam-se pela cidade, acabando festas, pondo a polícia a correr, tirando a teima dos valentões... Defendiam a sua precária liberdade, ora empregando apenas a agilidade muscular, ora valendo-se de cacetes e facas. Foi então que apareceu o Major Vidigal, chefe de polícia do Rio de Janeiro nos começos do século XIX - um diabo de homem que parecia estar em toda parte com os seus granadeiros armados de longos chicotes, que, protegidos pela distância a que mantinham os capoeiras, podiam ofendê-los a salvo. Apareceu até uma quadrinha popular:

Avistei o Vidigal
Caí no lodo
Se não sou ligeiro
Sujava-me todo

O regente Feijó impôs castigos corporais e desterros aos capoeiras cariocas. O problema pareceu solucionado no Segundo Império, mas o doutor Sampaio Ferraz, chefe de polícia do primeiro governo republicano, teve desterro de usar sua energia para prender os últimos deles- Manduca da Praia e Juca Reis- e desterrá-los para Fernando de Noronha, vencendo a resistência que lhes opuseram os políticos que os apadrinhavam.O Código Penal de 1890 previu penas corporais e desterro para os que se entregassem à capoeiragem.

As Maltas da Bahia foram desorganizadas por ocasião da guerra do Paraguai: o governo da província recrutou à força os capoeiras, que fez seguir para o sul como - Manuel Querino conta que muitos deles se distinguiram por atos de bravura no campo de batalha.

O mais famoso dos capoeiras nacionais era natural de Santo Amaro, na zona canavieira da Bahia, e tinha os apelidos de Besouro de Mangangá, gênero de besouro venenoso. Era invencível e inigualável. Ainda agora as chulas da capoeira cantam as suas proezas lendárias. Era o mestre dos mestres.

...meu mestre foi Mangangá.
Na roda que ele esteve
Outro mestre lá não há

A hora final chegou para as maltas do Recife mais ou menos em 1912, coincidindo com o nascimento do passo ou frevo, legado da capoeira. As bandas rivais do Quarto (4º Batalhão) e do Espanha (Guarda Nacional) desfilavam no carnaval pernambucano protegidas pela agilidade, pela valentia, pelos cacetes e pelas facas dos façanhundos capoeiras, que aos saracoteios desafiavam os inimigos:

Cresceu,
Caiu.
Partiu,
Morreu.

A polícia foi acabando, paulatinamente, com os e com os seus líderes, Nicolau do Poço, João de Totó, Jovino dos Coelhos, até neutralizar o maior de todos eles, Nascimento Grande.

Manuel Antônio de Almeida e Aluísio Azevedo não esqueceram os capoeiras nos seus romances. Poetas e cronistas se ocuparam do jogo. E são inúmeros os que, pelos mais diversos motivos, o recomendam como esporte e como forma nacional de luta, preferível aos tipos convencionais de competição individual de ataque e defesa.

Nesse século, e após a sua transformação em jogo, surgiram inúmeros estilos de capoeira. Os mais constantes são Angola, São Bento, o jogo de dentro e o jogo de fora.

O de Angola, calculado, manhoso, quase coreográfico, contrasta com o São Bento, um assédio mútuo em movimentos rápidos e contínuos, tendo por estibilho o nome do santo, enquanto a proximidade ou a distância entre os oponentes distinguem o jogo do , o primeiro quase uma luta, o segundo uma exibição acrobática.

Reconhecíveis pelo ritmo e pela canção, esses estilos, como outros de menor duração, já desaparecidos ou a caminho do desaparecimento, não bastam para modificar a fisionomia exterior da capoeira.

A execução da capoeira, como jogo, requer uma , um círculo de pessoas que delimita o campo em que ela se desenvolverá, e uma orquestra de berimbaus e pandeiros. Diante dessa orquestra agacham-se os parceiros, calados e imóveis, obedientes ao do jogo, enquanto dos instrumentistas canta a chula inicial. Quando a chula atinge os versos.

Iaiá, vorta do mundo
Ioiô, qu"o mundo dá

Os capoeiras se levantam e fazem um círculo completo na roda, um atrás do outro, em marche-marche. Ao que se encontre a frente cabe-se iniciar o jogo, desferindo o primeiro golpe.

Todos os golpes são característicos de luta , em que os adversários não se atracam, mas, guardando distância, livres, entram em contato apenas no momento exato do ataque e da defesa. Em especial, os golpes de capoeira utilizam exclusivamente os pés, servindo as mãos de apoio aos movimentos de todo o corpo. maltas voluntários da pátria chulas moleques de banda de música de dentro de fora roda preceito por aproximação

Assim, o jogo se torna muito mais uma sucessão de negaças, uma contínua experimentação da guarda do oponente, que efetivamente um combate. A ginga do capoeira, sublinhadas pelas chulas ao som de berimbaus e pandeiros, dá ao jogo uma aparência de dança.

Os golpes vem e vão, sem se fixarem, mas alguns já estão definitivamente incorporados à capoeira. Dois deles tem renome nacional - a rasteira e o rabo-de-arraia. Um outro constitui a figuração mais distintiva do jogo - o aú. Em geral, os golpes são ao mesmo tempo de ataque e de defesa, não sendo fácil estabelecer uma fronteira entre os movimentos ofensivos e defensivos. Esquivando-se ou protegendo-se de qualquer golpe, o capoeira aproveita o movimento como começo do revide.

O aú, o salto mortal, pode servir de exemplo. Ortodoxamente, poderia ser considerado uma defesa, pois, como o aú, o capoeira se distancia, e portanto se defende, do adversário. Contudo, o salto geralmente prenucia a rasteira, a meia-lua ou a chapa-de-pé, se não uma série de aús que podem levar o contentor a passar, por sua vez, para a defensiva.

Os golpes mais comuns são:

Aú: Flexionando o corpo, as mãos no chão, o capoeira descreve no ar um semi- círculo com os pés, voltando à posição ereta a dois metros do ponto em que se encontrava antes. Bananeira: Apoiado as mãos, as pernas para cima, o capoeira atira os pés contra o rosto ou o peito do contentor.

Chapa-de-pé: O capoeira distende a perna de maneira a alcançar, com a planta do pé, a cabeça ou o peito do oponente.

Chibata: Em movimento semelhante ao aú, o capoeira desfere, do alto, uma das pernas, retesada, sobre o adversário.

Meia-lua: Fazendo pião num dos pés, o capoeira distende a perna, em ângulo reto com o corpo, e gira na direção do comparsa.

Rabo-de-arraia: Com as mãos no chão, o capoeira atira as pernas (mais ou menos em ângulo reto com o corpo) contra os calcanhares do parceiro, promovendo a sua queda.

Rasteira: O capoeira, meio sentado no chão, apóia-se nas mãos e descreve um arco com uma das pernas, de maneira a bater no calcanhar do companheiro, fazendo-o desequilibrar-se.

Tesoura: Estando o de pé, o capoeira se joga ao comprido no chão de modo a prender-lhe as pernas, lateralmente, entre as suas, derrubando-o

Há golpes menores, complementares dos principais.

O escorão (a planta do pé no ventre do contrário) parece uma variante da chapa-de-pé. Pertence ao mesmo gênero a calcanheira (golpe de calcanhar). Quando o capoeira, em pleno movimento no ar, é derrubado por qualquer golpe, configura-se o . E a cabeçada constitui não tanto um golpe, mas um recurso de que se vale o capoeira para afastar de si o colega perigosamente próximo.

Em todos esses golpes vale muito mais a destreza do que a força muscular.

O bom jogador de capoeira, não obstante movimentar-se muitas vezes paralelamente com o chão, não suja a roupa- nem perde o chapéu. Os ases da capoeira na Bahia eram o pescador Samuel Querido de Deus e o estivador Maré. Mestre Pastinha, na sua sala de exibições, no Pelourinho, continua a tradição dos grande de Mangangá. E, no Rio de janeiro, Joel (Joel Lourenço do Espírito Santo) reúne em torno de si os capoeiras baianos que vieram tentear a vida na antiga capital do país.

Na Bahia, era o batuque o escalão inicial para a capoeira; no Rio de Janeiro, era e é a pernada, banda ou batuque a forma de ataque e defesa preferida pelo carioca; no Maranhão, a punga, associada ao tambor-de-crioula, parece preencher a mesma função. Já no Recife, a capoeira, desaparecida em conseqüência de vigorosa reação policial, se transfigurou no passo.

A capoeira se nutre, e se nutria no passado, da reserva de negaças camarado tombo da ladeira disciplos efetivos adestradas nessas formas subsidiárias de jogos (e de luta) individual.

 

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