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'Os negros lutam suas lutas misteriosas;
Bimba é o grande rei negro do misterioso rito africano'
,
par Ramagem Badaró
publié dans Saga - magazine das Américas - 1944 / Salvador.
Ramagem Badaró
journaliste, avocat et ecrivain bahiannais, auteur du roman "O Sol"

"Tinha uma difícil missão a cumprir. Encontrar um assunto para uma reportagem que não fosse sobre guerras, suicídios ou crime. Um assunto diferente que não proviesse da fonte comum de todas as reportagens da cidade.

Das delegacias de polícia, do Necrotério ou da Assistência. Porque os casos de delegacia são sempre os mesmos: roubo, crime e sedução. Os de Necrotério são anacrônicos e os de Assistência, banalíssimos. Estava nesse dilema, quando passou um negro de andar gingante de capoeira. Tinha resolvido o problema. Lembrei-me de mestre Bimba e da velha Roça do Lobo. Fui até o bairro elegante dos Barris, em cujos flancos se derramam em desordem as casas de taipa da vala do Dique.

Presépios de palha da miséria sem esperança dos homens do povo. Quando comecei a descer pela picada aberta na ladeira pelos pés descalços e calosos daquela gente que nasce com o atavismo dos parias e a herança do infortúnio, já os sons dos berimbaus traziam aos meus ouvidos o cartão de Boas Vindas do terreiro de mestre Bimba.

Continuei descendo, até que de repente o caminho se alargou e se confundiu com o terreiro onde os homens lutavam Capoeira. O povo formava um círculo ao redor dos dois homens lutando. Jogando Capoeira no centro do círculo. O berimbau batia compassadamente, tin-tin-tin... tin-tin-tin... tin-tin-tin... enquanto os homens pulavam, caíam, levantavam-se num salto e deixavam-se cair outra vez, se golpeando mutuamente. O povo batia palmas acompanhando a música dos berimbaus e cantando o estribilho da Capoeira:

Zum, zum, zum, zum
Capoeira mata um
Zum, zum, zum, zum
No terreiro fica um...

Caí também no meio da turma e comecei a bater palmas e a tentar cantar o zum, zum da Capoeira (...)."

.De súbito, o tin-tin nervoso dos berimbaus sumiu, calou-se, parou. Os berimbaus deixaram de tocar. Os homens que estavam lutando também pararam. Com as roupas molhadas de suor desenhando nas dobras do corpo os músculos possantes. Os assistentes aplaudiram os homens que tinham acabado de lutar. E eles cantaram um corrido, agradecendo os aplausos.

Ai-ai de lelô
Iem-ien de lalá
Adeus meus irmãos

Nós vamos rezar Nesse momento gritaram: - Mestre Bimba vai lutar!
Todo mundo se voltou para trás, batendo palmas e gritando.
- Mestre Bimba... mestre... viva... viva... vivôôôôôô.

Um preto agigantado entrou no círculo formado pelo povo. Sorrindo. A multidão aplaudiu com mais força. O sol bateu-lhe de rijo no rosto escuro, iluminando-lhe as feições. Era de fato, alto. O rosto oval. Os olhos fundos escondidos numa testa saliente. Nariz chato. Carapinha rala quase careca. E um bigode pequeno, ralo, em forma de triângulo sobre os lábios grossos. Mas no conjunto era simpático.

"Quando Bimba entrou no círculo os berimbaus começaram a ensaiar uns toques. E a multidão que enchia o terreiro aplaudia freneticamente o seu ídolo. Nisso, um crioulo possante entrou no círculo, aceitando o desafio. E o povo comentou a coragem daquele homem que ia lutar com Bimba. Porque entrar numa luta com Bimba sem ser convidado por ele é procurar encrenca. Mesmo sendo mera demonstração. Porque ele é o rei da Capoeira.

Os berimbaus ensaiaram um toque e um dos homens perguntou:
- Qual é o toque? - São Bento Grande Repicado, Santa Maria, Ave Maria, Benguela, Cavalaria, Calambolô, Tira-de-lá-bota-cá, Idalina, ou Conceição da Praia?

Bimba pensou rapidamente e disse: - Toque Amazonas e depois Benguela.

Os berimbaus começaram a tocar. O crioulo aproximou-se e mestre Bimba apertou-lhe a mão. E o povo começou a acompanhar o tin-tin-tin dos berimbaus, batendo palmas. Bimba balanceou o corpo e cantou:

No dia que eu amanheço
Dentro de Itabaianinha
Homem não monta cavalo
Nem mulher deita galinha
As freiras que estão rezando
Se esquecem da ladainha

Mas o crioulo não ficou atrás e cantou, negaceando o corpo no compasso dos berimbaus.

A iúna é mandingueira
Quando está no bebedor
Foi sabida e é ligeira
Mas capoeira matou

Palmas festejaram o repente do crioulo. Porém, Bimba não deu tréguas à vitória do outro. E respondeu: Oração de braço forte Oração de São Mateus Pro cemitério vão os ossos Os seus ossos, não os meus Novamente o povo aplaudiu e cantou o estribilho da Capoeira:

Zum, zum, zum, zum
Capoeira mata um
Zum, zum, zum, zum
No terreiro fica um

O crioulo, entretanto, não deixou cair a quadra de mestre Bimba e replicou:

E eu nasci no sábado
No domingo me criei
E na segunda-feira
A Capoeira joguei

A multidão deu vivas e bateu palmas para os dois lutadores no centro do círculo. Uma preta comentou: - Bom menino! Se é bom na briga como é no canto, boa parada para Bimba.

"Os dois lutadores negaceavam os corpos ao som da música dos berimbaus. Um defronte do outro. Olhando-se dentro dos olhos, se estudando mutuamente. O crioulo foi o primeiro a começar. Fazendo algumas fintas, procurando descobrir as partes fracas do adversário. E mestre Bimba aparentemente deixava-se cair nas ciladas do outro. O crioulo foi começando a tomar gosto e abrindo mais a própria guarda, concentrado no ataque. A multidão no terreiro da Roça do Lobo, continuava acompanhando com as mãos o tin-tin-tin dos berimbaus. E a cantar em coro o estribilho da Capoeira:

Zum, zum, zum, zum
Capoeira mata um
Zum, zum, zum, zum
No terreiro fica um

Enquanto isso os lutadores continuavam negaceando os corpos, procurando descobrir os pontos fracos do adversário. De repente, pararam de súbito. E ficaram mudos de atenção, apreciando o ataque. O crioulo avançou rápido, levantou uma perna e deu uma meia-lua-armada pela direita de Bimba. Porém, não deu resultado, porque Bimba foi mais rápido. Deixou-se cair na guarda, enquanto tentava puxar o adversário numa rasteira. Mas, o crioulo também era ligeiro e livrou-se do golpe com um aú pela esquerda. Bimba insistiu, tornando a atacá-lo. Tentando pegá-lo numa cabeçada presa. Porém o crioulo contra-atacou com uma calcanheira violentíssima. Entretanto Bimba livrou-se agilmente com um formidável pulo mortal.

Os berimbaus tocavam com mais frenesi. Demonstrando a excitação nervosa dos tocadores. Também as palmas de acompanhamento diminuíram muito, quase cessando. Enquanto isso a assistência completamente em suspenso, apreciava a luta nos seus mínimos detalhes. Bimba notou que tinha bom adversário. O crioulo era bom de verdade. Manhoso, ágil e corajoso.

O crioulo começou a se afastar de Bimba como se fosse dar-lhe as costas numa fuga. Bimba percebeu de relance o truque do adversário e ficou em guarda. Os músculos completamente controlados, prontos para aproveitar aquela oportunidade. Como ele esperava, o crioulo deu-lhe completamente as costas, como se fugisse da luta. Esperando que ele caísse no velho truque da Capoeira e mergulhasse num arpão de cabeça, dando-lhe a oportunidade de contra-atacar com um mortífero arpão de joelho.

Mestre Bimba, que já previra o golpe, defendeu-se com uma negativa. Puxando ao mesmo tempo a única perna do crioulo apoiada no chão, com uma violenta rasteira. Pegado de surpresa, o crioulo perdeu o equilíbrio, subiu e desabou no terreiro. Uma gritaria retumbante festejou a sagacidade de Bimba. Todo mundo ficou excitado, menos mestre Bimba. O capoeirista caído, levantou-se com a mesma rapidez com que caíra. Porém, estava raivoso, com o sangue fervendo nas veias. Danado de raiva e meio descontrolado. E afastou-se de Bimba, sempre negaceando o corpo, procurando desanuviar a cabeça. A assistência gritava e batia palmas acompanhando o tin-tin-tin nervoso da orquestra dos berimbaus e o xiquexique dos chocalhos de vime, cantando sempre o estribilho da capoeira

Zum, zum, zum, zum,
Capoeira mata um
Zum, zum, zum, zum
No terreiro fica um

Nesse instante o crioulo voltou novamente para o centro do círculo. E avançou para Bimba tentando pegá-lo numa vingativa pela esquerda. Não acertou e tomou uma vaia. O crioulo se descontrolou e avançou louco de raiva. Tentou apanhar Bimba com um golpe de cotovelo e um sopapo galopante. Mas Bimba não se deixava alcançar.

Continuava negaceando o corpo, sempre fintando, por meio de rápidas escapadas. A multidão delirava. Isso, entretanto, lhe distraiu a atenção. Fazendo com que relaxasse a vigilância da sua guarda. E o crioulo soube tirar partido desse descuido. Aproximou-se veloz, levantou a perna e deu-lhe uma bênção em pleno peito. Mestre Bimba pressentiu o golpe e tentou livrar-se. Foi ligeiro. Mas não o suficiente para se livrar completamente do golpe. O peito lhe doeu e a sua vaidade também. Porque as palmas do público festejavam o crioulo. Bimba não deu tréguas à vitória do outro. Avançou para o crioulo fingindo ir dar um balão açoitado. Depois, ensaiou uma palma e levantou a perna como se fosse dar uma bênção.

O crioulo ficou todo confuso com a rapidez e a sucessão dos golpes. Pensou que aquele último golpe era o verdadeiro ataque que Bimba queria fazer e procurou defender-se caindo numa rasteira. Viu o seu erro e tentou derrubar Bimba com uma encruzilhada. Também errou e mestre Bimba dominou-o com um tronco de pescoço, antes que ele pudesse livrar-se num balão. Tinha vencido a luta. O povo invadiu o terreiro aplaudindo o rei da Capoeira. Bimba abraçou o adversário. E o crioulo mostrou que era homem mesmo. Cantou:

Santo Antônio pequenino
Amansador de burro brabo
Amansai-me em Capoeira
com setenta mil diabos

Bimba gostou do elogio e retribuiu, cantando:

Eu conheci um camarada
Que quando nós andarmos juntos
Não vai haver cemitérios
P'ra caber tantos defuntos

A multidão tornou a aplaudir e mestre Bimba abraçou o crioulo (...)."

N.B. on peut trouver une traduction de ce texte (en français) dans le livre "Capoeira, Vamos jogar Camarà" de Cécile Bennegent édité en 2002

 

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