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Capoeiras e capoeiristas (2) - Marieta Borges lins e Silva
Publié en novembre 2006 dans le Jornal do Commerçio

Retomando o tema “capoeiras e capoeiristas”, de que tratamos em artigo há alguns meses, reportamo-nos aos tempos da Monarquia, quando a capoeira era praticada principalmente entre os escravos e o castigo para quem assim procedesse era 300 chibatadas (em 1820) e prisão em calabouço e cem açoites (em 1825). Já se dizia então que “os capoeiras infernavam as ruas da cidade de um modo escandaloso”. Os incidentes se multiplicavam a cada década. Os castigos, também. Os jornais da época mencionavam as atividades dos capoeiras, inclusive destacando a participação de homens livres (não cativos) e brancos entre os “magotes de capoeiras” que promoviam arruaças pela cidade. Isso faz entender que a capoeiragem era atividade comum para muitas pessoas, livres ou escravas, praticada àquela altura em festas tradicionais, com correrias e insultos que abalavam a tranqüilidade das ruas e eram consideradas dignas de serem perseguidas.

Nos primeiros tempos de República – como se ventilou no artigo anterior – instalou-se no Brasil o mais organizado processo de perseguição policial, sendo a capoeira a atividade mais afrontada, por considerarem – os que dela se ocuparam – que sua prática seria uma “arma” nas mãos das classes consideradas “perigosas”. Na época, as cidades passavam por uma “limpeza urbana” sem paralelos e, de forma ostensiva, os olhos se voltavam para aqueles que “formavam rodas e, com berimbaus, pandeiros e reco-recos, vadiavam freneticamente no jogo da capoeira”.

A meta dos que detinham o poder era “exterminar totalmente os vadios e turbulentos capoeiras”. Esses assim considerados nem precisavam ser atuados em flagrante, bastava serem capoeiristas. A medida legal decorrente dessa odiosa perseguição foi o Código Penal de 1890, que dava à atividade tratamento específico no artigo 402, que tipificava: “Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem. Será o autuado punido com dois a seis meses de prisão.” No rastro desse primeiro instrumento jurídico de perseguição, outros surgiram, com decretos de efeitos complementares, que buscavam as maltas de capoeiras e lhes davam voz de prisão.

A maior perseguição aos capoeiras se deu em 1890, 1891 e 1904. Foi o tempo em que muitos desses “subversivos” foram deportados para lugares distantes, como o Acre (461 homens) e a Ilha das Cobras (950) e, sobretudo, na sua maioria e a partir de 1890, para o arquipélago de Fernando de Noronha, onde funcionava uma Colônia Correcional desde a sua definitiva ocupação (em 1737), para presos comuns de Pernambuco e que, naquela época, estava temporariamente subordinada ao Ministério da Justiça (entre 1877 e 1891).

Quem era o Capoeira, no final do século 19? Muitos estudiosos fizeram buscas para identificar o padrão racial, lugar onde vivia, nível de escolaridade, ofício que tinha e a faixa etária desse praticante. Surpreendentemente, era no Rio de Janeiro que estava a grande maioria dos homens perseguidos. Muitos também havia na Bahia e em Pernambuco. Marcos Breda e Mello Moraes foram dois dos grandes estudiosos da capoeira. Seus trabalhos trouxeram luz sobre o tema, relacionando os homens assim denominados como 1) oriundos, na sua maioria, das classes populares, 2) quase todos com trabalhos fixos (até por medo de serem identificados por vagabundagem), 3) embora a maioria fosse de cor negra ou mestiça, muitos brancos foram presos também, desmistificando a idéia de que a prática era só entre homens de cor, 4) o principal palco de conflito era o Rio de Janeiro, capital da República, embora até imigrantes fizessem parte desse “elenco marginal”, 5) as roupas usadas eram facilmente identificadas nos pequenos detalhes que continham.

É incrível reconhecer-se hoje – em tempos de liberdade – que uma prática tão coibida houvesse permanecido, impondo sua sobrevivência cultural pelo século seguinte (século 20), como se uma “transição cultural subterrânea” permitisse essa continuidade até os nossos dias e, agora, em liberdade e reconhecimento até como uma arte.

Olhada como forma de luta corporal, a capoeira tem seus heróis em todos os tempos. Alguns nomes são mencionados com respeito, mesmo que tenham eles sofrido a dureza dos porões penitenciários e o exílio obrigatório. Homens como Manduca da Praia, Juca Reis, Ciríaco Francisco da Silva e tantos outros viraram mito no imaginário popular. Thomas H. Hollowst, professor da Universidade Cornell, de Nova Iorque, publicou nos Cadernos Cândido Mendes – Estudos afro-asiáticos, em 1989, minucioso artigo em que avalia a ação dos capoeiristas ao longo do século 19 e início do século 20, com informações muito importantes para a compreensão desse esporte-luta-arte (seja como for hoje considerado), fazendo importante passeio pelas ruas do Rio, identificando acontecimentos que levaram a capoeira a ser perseguida. E outros, no Brasil ou no exterior, fizeram e fazem buscas incessantes, tornando-se quase uma clã, seja pelo conhecimento de que se deixam impregnar, seja pelo olhar saudável que deitam sobre essa antiga e histórica forma de trabalhar o corpo e que é, sem dúvida, considerada hoje um esporte brasileiro. Tomara que continuem buscando.

Marieta Borges Lins e Silva é pesquisadora, coordenadora do Programa de Resgate Documental sobre Fernando de Noronha.

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